domingo, 22 de novembro de 2009

Alegria de Negro

por Jorge da Hora

20 de Novembro de 2009, já se passam 314 anos desde a morte de Zumbi, primeiro grande líder negro a existir no Brasil ou pelo menos quem a nossa sociedade adotou como tal. Não posso negar que minha expectativa por essa data é imensa pois será a primeira vez em que vivo esse feriado como um total militante da causa negra. Não que antes eu não soubesse o que eu sou, como vim parar aqui nessas coordenadas geográficas ou por que a dita segurança pública insiste (juntamente a maioria de brancos que cruzam meu caminho) em me julgar marginal, mas não escondo que sentia uma ansiedade e uma euforia especial pelo dia de hoje, afinal, é dia da Consciência Negra!Minha primeira ação nesse dia é fazer questão de abraçar fortemente meus familiares, não num gesto de comemoração, mas num gesto de fraternidade, de união naquele dia em que enaltecemos nosso ideal, nossa luta, nossa dor, nossa consciência. Com R$ 10,00 na carteira minha primeira parada é Madureira, reduto conteporâneo da malandragem,de maioria negra, cantado em diversos sambas por diversos intérpretes. Chego lá junto a meus irmãos e irmãs afim de me encontrar com outros irmãos e irmãs adeptos a causa negra, digo adeptos a causa pois infelizmente não é todo negro no Brasil que é ciente de sua identidade como negro, malungo, oprimido. Nosso ponto de encontro é numa loja, D'Negro, que visa o vestuário e acessórios de origem africana. Após agulmas horas regadas à água e água o evento começa com dizeres de uma sacerdotiza espíritual seguido de capoeiragem, samba, pagode, conversas soltas, assuntos como futebol. Algumos brancos passam por lá, olham, param, riem e um deles a convite do dono da loja insiste veentemente em tirar fotos do eventos como se tudo aquilo, negros reunidos e felizes por serem negros, fosse um acontecimento digno de ser registrado por aquelas lentes profissionais. No entanto nenhum branco foi tomado pelo seu hábito quase que natural de repreender, hostilizar, zombar ou até mesmo ignorar aquela manifestação afinal, hoje, os pretos podem comemorar a vontade.Saí dali com um sentimento de vazio, de falta, primeiro porque um de nossos irmãos teve que nos deixar para ir a outro evento e segundo porque em nenhum momento vi qualquer discussão sobre a consciencia negra em si, só festa. Chego então a praça onze onde há uma grande festa ao lado do monumento que homenageia Zumbi dos Palmares. Como em poucos lugares ali me sinto a vontade, em casa, junto aos meus, sem opressão e com uma insistente parcela de brancos que compartilham de toda aquela alegria de ser negro, mesmo sem saber exatemente o que os trás até ali. As comemorações seguem com samba, black music, show de Arlindo Cruz (o qual admito que sou grande fã) e sucessivas paradas dos apresentadores do evento que hora chamavam as passistas da Mangueira (hegemonicamente negras) de mulatas, hora pediam para que libertassem a porção negra no coração de cada um ali, valorizando assim a miscigenação brasileira. Confesso que assim como 90% dos presentes naquele lugar não vejo uma "porção negra" em mim, eu a maioria das pessoas que estavam ali somos completamente negros.O dia terminou, volto pra casa com a cabeça em um turbilhão de pensamentos e reflexões sobre tudo que vi e vivi naquele 20 de Novembro e pretendo expor aqui algumas delas. Será que a consciencia negra realmente foi elevada durante aquele dia na cabeça de todos que participaram daqueles eventos? Será que é de real interesse da sociedade e do governo que o negro tenha noção de que ele não é inferior, de que ele não deve se adequar ao padrões estéticos e culturais do branco, de que o lugar dele não é só na favela e na escola municipal ou lotando os meios de transporte toda bendita manhã? Será que todos os afro-descendentes que viveram esse dia estão dispostos a não tolerar repreensões sobre o tamanho de sua boca, a largura do seu nariz, as caractéristicas de seu cabelo dito ruim? Será que as negras ali presentes vão parar de "dar um jeito" em seus cabelos alisando-os? Será que os menos pigmentados vão para de se chamar de morenos, mulatos de se afirmarão NEGROS? Será que alguem ali pensou em dar seguimento aos ideais de Zumbi dos Palmares? Será todas essas minhas expectativas a respeito da verdaderia consciencia negra serão postas em práticas no dia 20 de Novembro e esquecidas no resto do ano?Gostei do meu primeiro dia da consciencia negra, julgo que foi um bom dia, porém no que diz respeito a acordar para a realidade todos aqueles negros que estavam ali, creio que ainda há muito a ser feito, a ser lembrado, a ser contestado. E para completar meu dia, chego na rua de classe média onde moro e encontro um amigo branco que diz: "Hoje é seu dia, parabéns. Mas porque será que não há dia da Consciencia Branca?

Sonho

Essa noite tive um sonho. Sonhei com o tempo do cativeiro, da corrente, do chicote, do engenho. São lembranças que me cortam o coração, ver o negro acorrentado, solitário e amargurado negro irmão. O capitão sem piedade arrastava o negro e esse lamentava a cor da pele. E no fim da tarde esse negro velho, desesperado foi-se embora para nunca mais voltar. Senhor de engenho, no cair da noite mansa, ouviu um choro de vingança com uma voz a lhe falar: "Eu fui escravo mas meu filho não vai ser, vai aprender a capoeiragem pra poder se defender".

Todo poder para o povo preto!

sábado, 21 de novembro de 2009

Alegria Negra

por Jorge da Hora

20 de Novembro de 2009, já se passam 314 anos desde a morte de Zumbi, primeiro grande líder negro a existir no Brasil ou pelo menos quem a nossa sociedade adotou como tal. Não posso negar que minha expectativa por essa data é imensa pois será a primeira vez em que vivo esse feriado como um total militante da causa negra. Não que antes eu não soubesse o que eu sou, como vim parar aqui nessas coordenadas geográficas ou por que a dita segurança pública insiste (juntamente a maioria de brancos que cruzam meu caminho) em me julgar marginal, mas não escondo que sentia uma ansiedade e uma euforia especial pelo dia de hoje, afinal, é dia da Consciência Negra!
Minha primeira ação nesse dia é fazer questão de abraçar fortemente meus familiares, não num gesto de comemoração, mas num gesto de fraternidade, de união naquele dia em que enaltecemos nosso ideal, nossa luta, nossa dor, nossa consciência. Com R$ 10,00 na carteira minha primeira parada é Madureira, reduto conteporâneo da malandragem,de maioria negra, cantado em diversos sambas por diversos intérpretes. Chego lá junto a meus irmãos e irmãs afim de me encontrar com outros irmãos e irmãs adeptos a causa negra, digo adeptos a causa pois infelizmente não é todo negro no Brasil que é ciente de sua identidade como negro, malungo, oprimido. Nosso ponto de encontro é numa loja, D'Negro, que visa o vestuário e acessórios de origem africana. Após agulmas horas regadas à água e água o evento começa com dizeres de uma sacerdotiza espíritual seguido de capoeiragem, samba, pagode, conversas soltas, assuntos como futebol. Algumos brancos passam por lá, olham, param, riem e um deles a convite do dono da loja insiste veentemente em tirar fotos do eventos como se tudo aquilo, negros reunidos e felizes por serem negros, fosse um acontecimento digno de ser registrado por aquelas lentes profissionais. No entanto nenhum branco foi tomado pelo seu hábito quase que natural de repreender, hostilizar, zombar ou até mesmo ignorar aquela manifestação afinal, hoje, os pretos podem comemorar a vontade.
Saí dali com um sentimento de vazio, de falta, primeiro porque um de nossos irmãos teve que nos deixar para ir a outro evento e segundo porque em nenhum momento vi qualquer discussão sobre a consciencia negra em si, só festa. Chego então a praça onze onde há uma grande festa ao lado do monumento que homenageia Zumbi dos Palmares. Como em poucos lugares ali me sinto a vontade, em casa, junto aos meus, sem opressão e com uma insistente parcela de brancos que compartilham de toda aquela alegria de ser negro, mesmo sem saber exatemente o que os trás até ali. As comemorações seguem com samba, black music, show de Arlindo Cruz (o qual admito que sou grande fã) e sucessivas paradas dos apresentadores do evento que hora chamavam as passistas da Mangueira (hegemonicamente negras) de mulatas, hora pediam para que libertassem a porção negra no coração de cada um ali, valorizando assim a miscigenação brasileira. Confesso que assim como 90% dos presentes naquele lugar não vejo uma "porção negra" em mim, eu a maioria das pessoas que estavam ali somos completamente negros.
O dia terminou, volto pra casa com a cabeça em um turbilhão de pensamentos e reflexões sobre tudo que vi e vivi naquele 20 de Novembro e pretendo expor aqui algumas delas. Será que a consciencia negra realmente foi elevada durante aquele dia na cabeça de todos que participaram daqueles eventos? Será que é de real interesse da sociedade e do governo que o negro tenha noção de que ele não é inferior, de que ele não deve se adequar ao padrões estéticos e culturais do branco, de que o lugar dele não é só na favela e na escola municipal ou lotando os meios de transporte toda bendita manhã? Será que todos os afro-descendentes que viveram esse dia estão dispostos a não tolerar repreensões sobre o tamanho de sua boca, a largura do seu nariz, as caractéristicas de seu cabelo dito ruim? Será que as negras ali presentes vão parar de "dar um jeito" em seus cabelos alisando-os? Será que os menos pigmentados vão para de se chamar de morenos, mulatos de se afirmarão NEGROS? Será que alguem ali pensou em dar seguimento aos ideais de Zumbi dos Palmares? Será todas essas minhas expectativas a respeito da verdaderia consciencia negra serão postas em práticas no dia 20 de Novembro e esquecidas no resto do ano?
Gostei do meu primeiro dia da consciencia negra, julgo que foi um bom dia, porém no que diz respeito a acordar para a realidade todos aqueles negros que estavam ali, creio que ainda há muito a ser feito, a ser lembrado, a ser contestado. E para completar meu dia, chego na rua de classe média onde moro e encontro um amigo branco que diz: "Hoje é seu dia, parabéns. Mas porque será que não há dia da Consciencia Branca?

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Salve Zumbi!!!

po...postei essa parada lá no meu blog...acho que seria maneiro postar aqui também...



Hoje é o nosso dia!!!

Hoje é o dia que sintetiza a nossa luta (interminável) pela emancipação...nossa luta pelo fim da escravidão (como seria bom se ja tivesse acabado)...nossa luta pela recuperação dos nosso direitos...
Fomos (e somos) mortos pela ganância dos senhores de engenho (atualmente chamados de patrões)
Éramos transportados em navios negreiros(atualmente chamado de coletivo)
Correntes nos obrigavam a permanecer nas casas grandes...mas nunca prendiam as nossas mentes,que sonhavam constantemente com a liberdade....
Nos deram a lei aurea,pra nos aprisionar em favelas...Hoje nada mais somos,do que escravos de ganho...Ainda vivemos em condições sub-humanas,temos os piores empregos,os piores salários....
A escravidão acabou??Difícil crer em tal coisa...
Não podemos nos iludir,pois vivemos em um país ,onde somos levados a crer a todo momento que o racismo não existe...mas po,não posso crer que seja somente uma conscidencia o fato da burguesia ser constitida 95% por branos,e a minha raça ocupar 95% das fevelas...
Obama foi eleito né??Legal...mas quantos manos seus deixaram o gueto por conta disso?
Ainda se faz necessário a articulação dos irmãos.Temos que nos unir (assim como em Palmares) para que o nosso povo,realmente seja um povo LIVRE!!


Zumbi ainda vive na mente e nos corações de todos os que lutam por liberdade.






JORGE BEN JOR : ZUMBI

"Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há
Um princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados num carro de boi
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Dum lado cana de açúcar
Do outro lado o cafezal
Ao centro senhores sentados
Vendo a colheita do algodão tão branco
Sendo colhidos por mãos negras
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
È senhor das demandas
Quando Zumbi chega e Zumbi
É quem manda
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver"

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ReNEG: Quem nós somos?

Samora Machel

Palavra-Chave: Resgate. Somos uma unidade e luta de negras e negros com a proposta de trazer os valores africanos que foram criminosamente destruídos e quase se perderam. Dizemos “Quase”, pois mesmo que não saibamos de fato como viviam nossos antepassados, ainda somos a provada essência desses valores, mesmo com a brutalidade do colonizador europeu.

Qual é o nosso valor? Representamos todas as negras e negros.

Toda diáspora. Somos a favela e a favela somos nós.

Frente a isso, acreditamos na mulher negra na luta contra a opressão do nosso povo.Se mulher branca é excluída pelo machismo, nós, negras, estamos em situação desfavorável por questões raciais e de gênero.

Enquanto tivermos crise de identidade ou até mesmo alheio a isso, existe liberdade? Resistir aos nossos valores e idéias que não nos permite alcançar nossa plena liberdade e nos prende às falsas ideologias de que temos espaço e voz. Assumir nossa realidade.

Somos invisíveis aos olhos do grande monstro no topo da hierarquia social, a burguesia, a elite branca. Esse autoritarismo branco de 500 anos já é bastante. Nós, os negros, não podemos, não queremos e não devemos tolerá-lo por mais tempo. Sabemos por experiência própria que uma das práticas desse autoritarismo é o desrespeito brutal da polícia às famílias negras. Xingar não basta. Precisamos é de mobilização e de organização da gente negra e de uma luta, sem pausa ou descanso, contra as destruições que nos atingem. Nunca esquecer que estivemos sob a violência da Oligarquia latifundiária, empresários e forças militares.

Até que ponto vamos assistir impotentes à cruel exterminação de nossas irmãs e irmãos afro-brasileiros, principalmente das crianças negras deste país?

Cuidar e organizar nossa luta por nós mesmos é imperativo para nossa sobrevivência como povo malungo.

Todo Poder para povo Preto!

ReNEG, Rio de janeiro, 02 de novembro 2009.

"Só dormiremos
Quando tivermos a certeza
de que o amanhã será repleto de mudanças.
Enquanto não houver essa mudança,
Faremos de nossos corpos uma arma.
As armas não dormem
enquanto as balas não acabam.
Será que a última munição significa mudança?"

Leppe Kinte.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Vila que Cruz carrega


Vila Cruzeiro - 08/07/1970: um outro panorama. Quando nossos antepassados, "ex-escravizados", ainda estavam a formar a comunidade. As terras, que são da Igreja da Penha, foram doadas por um tal Padre abolicionista.



O clima é de tensão.
Estamos aqui, jogados no chão.
Sitiados.
Encurralados.
Oprimidos.
Reprimidos.
Ninguém entra;
Ninguém sai.
Direito de ir e vir?
Eu nunca soube o que isso significa de fato.
Vivemos há mais de 500 anos patrulhados,
vigiados, controlados.
Também não sei o que é liberdade.
Essa tal deve ser uma coisa legal,
pois sempre escutei as pessoas
dizendo que querem ser livres.
Talvez quando tivermos muito dinheiro
ela queira se aproximar de repente.
Isso se compra??? Quanto custa???



Estou aqui, estirada;
com o corpo vivo
e alma padecendo.
O que está acontecendo
com nossos irmãos lá fora?


SILÊNCIO



"A calma de repente só precede o
Momento de revolta no presídio"



"Have a nice day" - "Tenha um bom dia" (Banksy)


----------pânico--------pólvora----------tiros-------------


SILÊNCIO 2

Olho por um buraco na parede,
marca de outros confrontos,
e vejo o sofrimento, a tensão dos irmãos
Lá fora, os pretos na correria,
alguns nem conseguem bem correr,
outros, na contenção...
Uns espreitam pelo muro
dando a cobertura:
1º bonde - cerca de 30.
Alguns moleques, outros já mais velho.
Vários bicos!
O que sentem eles? O que sentimos nós?
Eles sentem medo.
Gritam: "corre, nós vamos morrer!"
Como seria se eles tivessem
a concepção de que são PRETOS?

Mais uma rajada;
a mão da caneta amolece.
O corpo escorrega e deita no chão.
Acalmo a alma; escuto música.
Reflito.
Que sujeira é essa?
Números:
Ano: 2007
Mês: 5
Tempo de ocupação: 3 meses
Pessoas mortas: +- 120
Pessoas feridas: + que 120

2014, 2016

Números muito além!
Daqui pra lá, teremos mais...
...mais tempo de limparmos a sujeira;
...mais tempo de ocupação;
...mais pessoas mortas;
...mais pessoas feridas;
...mais números!

Gostamos de números!
Afirmamos com as estatísticas.
Elas nos satisfazem.
Nada além disso: SATISFAÇÃO!

Mais silêncio...a poeira baixa!
Tempo suficiente para sair daqui.
Estão todos indo! Tenho que ir também.
Ver como estão as coisas lá fora;
ver além desse buraco de bala
que me possibilita alguma visão.
O burburinho do povo diz
que as ruas estão fechadas.
Que elas estão desertas, eu sei!

Vila Cruzeiro, 21/10/09 - 10:21




Saí à rua com tensão.
Ferros com arames no chão;
um ônibus fecha uma entrada;
um caminhão fecha uma outra.
Os bicos nas entradas das vielas
estampam medo em seus rostos.
Pavor ao palmear os becos.
Na passagem, a tática de guerra;
dar cobertura ao outro.
Muito tiro na descida da rua.
Mesmo no desespero,
tive que manter a calma.
O helicóptero sobrevoa
nossas cabeças.
Já lá embaixo,
os capitães-do-mato estão prontos!
Os repórteres estão sempre presentes.
Estão sedentos; esperando a morte!
A morte de um dos nossos.
Urubus em cima da carniça!
Nos bares, o noticiário.
Eles mantêm a população
muito bem informada!
Sempre exercendo seu papel
SENSACIONALISTA!
Algo tão próximo a mim.
E dói; e perfura; e rasga.
E, aos poucos, mata!



O povo glorifica a barbárie que sofre.
O Fascismo do Estado tem rosto,
corpo, voz e bordão: escraaaaaaaaaacha!
O que fizeram conosco?
Eles não nos destroem, não nos matam.
Fazem com que nos auto-destruamos;
Fazem com que nos matemos entre nós mesmos.
Assistimos com graça, com serenidade,
achamos engraçado olhar nossa destruição.
"Larga o aço", homenageia as corporações militares;
honra o caos, uma miniatura do caveirão sobre sua mesa!
Este é um dos cenários mais bizarros que já pude ver.
Materializa seu discurso na gente
quando nos humilha com sua migalha,
obrigando-nos a falar "escraaaacha"
ao atender o telefone.
É a nossa prisão!

Não sei mais o que acontecerá quando abrir os olhos amanhã. Nem sei se ao certo abrirei os olhos amanhã. Queria optar por não ter que abrí-los enquanto essa guerra não acaba. Isso causa a minha morte. Não consigo ter forças pra olhar na cara de ninguém. Não sei se devo, mas às vezes me envergonho disso tudo, me envergonho de mim mesma. As sensações de solidão e impotência se aliam. Nada consegue me tirar dessa inércia enquanto assisto e aplaudo meus irmãos morrendo! Amanhã, quero só respirar.

Minha casa, Penha, 21/10/09 - 14:58


Vila Cruzeiro - 2007

*Clique nas fotos para ampliá-las

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pra que ser preto??



Essa é uma pergunta que sempre vem na minha mente...pra que ser preto?? Qual a importância de querer afirmar a minha raça, em um país onde as piores coisas sempre estão relacionadas a minha
cor...
Qual a minha importância em participar de um movimento negro...ou melhor,pra que estou participando de um movimento negro? O que eu quero com isso? O que nós queremos com isso?
Ainda me lembro de como era bom a época em vivia feliz( alienado),de quantos amigos eu fiz,de quantos porres eu tomei,de quantas madrugadas passei em claro esperando o sol nascer....
Penso também nas mulheres pretas...todas elas sabem que o padrão de beleza não as inclui..mas mesmo assim vejo às vejo teimarem em usar os seus cabelos duros...pra que isso?? O que elas tentam afirmar? Por que não alisam o cabelo,ou fazem uma plastica no nariz?
Talves toda essa minha "pretisse",seja uma farça...talves eu só esteja querendo mostrar pros meus amigos que eu sou um cara compromissado,que sou envolvido em uma causa racial....talves eu queira mostar pros coroas que sou uma continuidade deles,que sou tão ativo na minha geração ,quantos eles foram na geração deles....em outras palavras, talves eu esteja nessa só pra posar de " PÃ"...todo esse papo de áfrica,de diaspora,é bonitão de falar,pareço um verdadeiro intelectual,quando começo a sitar os escritores africanos que ja li...será que eu realmente morreria pela causa? Será que eu realmente entendo o sofrimento de uma mãe preta? Será que eu sou mesmo preto? Será que estou sendo preto quando não enxergo que o individualismo causará o fim dos pretos? A "Àfrica-latina" está padecendo,e sinto que os seus filhos padecem junto,quando optam pela desunião...
Assim..........cada um deve ter a sua resposta de por que ser preto...,mas acredito que em suma ,o que predomina é o sentimento tribal que subconscientemente ainda possuímos...ainda conseguimos enxergar os irmãos da africa,das favelas,das prisões,dos mangues,dos canaviais,como uma extensão de nós mesmo...me entristese muito ,quando vejo o véu branco cobrindo os meus irmãos e irmãs...


Temos que ser pretos pra que fotos como essa, não apareçam no Google,todas vez que álguem procurar por fotos da africa...
Do lado de cá do Oceano vejo irmãos se matando a troco de nada..vejo irmão inventando motivos pra começar uma briga, vejo irmão invejando a vestimenta do próximo,vejo irmão falando mal do próprio irmão........tudo isso reforça o quanto somos marionetes,nas mãos do homem branco...
Formamos todos um só corpo,fruto da mãe África!
Pra que ser preto??
Pra manter viva chama da esprança....pra que um dia não pareça ser impossivel,ou não pareça tão distante a visualização do negro como cidadão!
Só gostaria de deixar uma questão : Não sei de qual tribo vim,não falo Iorubá,não vou ao Candomblé,não uso bata,não sou Rasta,não sei sambar,não tenho a foto do Bob marley no meu orkut e não gosto de futebol....mesmo assim ainda posso me considerar preto né?


Thiago Ultra


ELZA SOARES - A CARNE