
Vila Cruzeiro - 08/07/1970: um outro panorama. Quando nossos antepassados, "ex-escravizados", ainda estavam a formar a comunidade. As terras, que são da Igreja da Penha, foram doadas por um tal Padre abolicionista.
O clima é de tensão.
Estamos aqui, jogados no chão.
Sitiados.
Encurralados.
Oprimidos.
Reprimidos.
Ninguém entra;
Ninguém sai.
Direito de ir e vir?
Eu nunca soube o que isso significa de fato.
Vivemos há mais de 500 anos patrulhados,
vigiados, controlados.
Também não sei o que é liberdade.
Essa tal deve ser uma coisa legal,
pois sempre escutei as pessoas
dizendo que querem ser livres.
Talvez quando tivermos muito dinheiro
ela queira se aproximar de repente.
Isso se compra??? Quanto custa???

Estou aqui, estirada;
com o corpo vivo
e alma padecendo.
O que está acontecendo
com nossos irmãos lá fora?
SILÊNCIO
"A calma de repente só precede oMomento de revolta no presídio"
"Have a nice day" - "Tenha um bom dia" (Banksy)
----------pânico--------pólvora----------tiros-------------
SILÊNCIO 2
Olho por um buraco na parede,
marca de outros confrontos,
e vejo o sofrimento, a tensão dos irmãos
Lá fora, os pretos na correria,
alguns nem conseguem bem correr,
outros, na contenção...
Uns espreitam pelo muro
dando a cobertura:
1º bonde - cerca de 30.
Alguns moleques, outros já mais velho.
Vários bicos!
O que sentem eles? O que sentimos nós?
Eles sentem medo.
Gritam: "corre, nós vamos morrer!"
Como seria se eles tivessem
a concepção de que são PRETOS?
Mais uma rajada;
a mão da caneta amolece.
O corpo escorrega e deita no chão.
Acalmo a alma; escuto música.
Reflito.
Que sujeira é essa?
Números:
Ano: 2007
Mês: 5
Tempo de ocupação: 3 meses
Pessoas mortas: +- 120
Pessoas feridas: + que 120
2014, 2016Números muito além!
Daqui pra lá, teremos mais...
...mais tempo de limparmos a sujeira;
...mais tempo de ocupação;
...mais pessoas mortas;
...mais pessoas feridas;
...mais números!
Gostamos de números!
Afirmamos com as estatísticas.
Elas nos satisfazem.
Nada além disso: SATISFAÇÃO!
Mais silêncio...a poeira baixa!
Tempo suficiente para sair daqui.
Estão todos indo! Tenho que ir também.
Ver como estão as coisas lá fora;
ver além desse buraco de bala
que me possibilita alguma visão.
O burburinho do povo diz
que as ruas estão fechadas.
Que elas estão desertas, eu sei!
Vila Cruzeiro, 21/10/09 - 10:21
Saí à rua com tensão.
Ferros com arames no chão;
um ônibus fecha uma entrada;
um caminhão fecha uma outra.
Os bicos nas entradas das vielas
estampam medo em seus rostos.
Pavor ao palmear os becos.
Na passagem, a tática de guerra;
dar cobertura ao outro.
Muito tiro na descida da rua.
Mesmo no desespero,
tive que manter a calma.
O helicóptero sobrevoa
nossas cabeças.
Já lá embaixo,
os capitães-do-mato estão prontos!
Os repórteres estão sempre presentes.
Estão sedentos; esperando a morte!
A morte de um dos nossos.
Urubus em cima da carniça!
Nos bares, o noticiário.
Eles mantêm a população
muito bem informada!
Sempre exercendo seu papel
SENSACIONALISTA!
Algo tão próximo a mim.
E dói; e perfura; e rasga.
E, aos poucos, mata!

O povo glorifica a barbárie que sofre.
O Fascismo do Estado tem rosto,
corpo, voz e bordão: escraaaaaaaaaacha!
O que fizeram conosco?
Eles não nos destroem, não nos matam.
Fazem com que nos auto-destruamos;
Fazem com que nos matemos entre nós mesmos.
Assistimos com graça, com serenidade,
achamos engraçado olhar nossa destruição.
"Larga o aço", homenageia as corporações militares;
honra o caos, uma miniatura do caveirão sobre sua mesa!
Este é um dos cenários mais bizarros que já pude ver.
Materializa seu discurso na gente
quando nos humilha com sua migalha,
obrigando-nos a falar "escraaaacha"
ao atender o telefone.
É a nossa prisão!
Não sei mais o que acontecerá quando abrir os olhos amanhã. Nem sei se ao certo abrirei os olhos amanhã. Queria optar por não ter que abrí-los enquanto essa guerra não acaba. Isso causa a minha morte. Não consigo ter forças pra olhar na cara de ninguém. Não sei se devo, mas às vezes me envergonho disso tudo, me envergonho de mim mesma. As sensações de solidão e impotência se aliam. Nada consegue me tirar dessa inércia enquanto assisto e aplaudo meus irmãos morrendo! Amanhã, quero só respirar.
5 comentários:
admiro quem tem o dom da escrita
Ou pelo menos quem tenta, no meu caso...
Oh, Maricotinha, que texto foda =)
Palavras de cuja sabedoria é enorme.
Textos estão nascendo vamos dá vida a eles aqui.
Me emociono e estou contigo até nos pensamentos, nas sensações. Estou com vocês! Axé
Postar um comentário